Politica: Datafolha revela que povo entende gravidade da conduta do juiz Moro

Pesquisa Datafolha publicada neste domingo mostrou que a maioria da população compreendeu a gravidade das revelações do “The Intercept Brasil”, especialmente a conduta do então juiz Sergio Moro, hoje ministro da Justiça.

Entre aqueles que tomaram conhecimento das reportagens baseadas no arquivo do “Intercept”, a ação de Moro na Lava Jato foi considerada inadequada por 58% dos entrevistados _31% a julgaram adequada e 11% não souberam avaliar.

Reportagem publicada pela revista “Veja” na sexta-feira trouxe mais detalhes que confirmam que o então juiz Sergio Moro estava no comando de fato da Lava Jato, algo ilegal. Trocando em miúdos: Moro tomou parte da acusação contra a defesa. A lei não permite.

É um sonho de consumo de qualquer advogado ter um juiz que lhes lembre que o prazo está acabando, como fez Moro com o Ministério Público Federal.

O então juiz se opôs a eventual delação premiada do peemedebista Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara. É óbvio que havia interesse público na eventual delação de pessoa tão poderosa. Mas Moro, a principal figura da Lava Jato, manifestou-se contra em troca de mensagens com o procurador da República Deltan Dallagnol. Ora, isso tem peso político enorme.

Uma eventual falha da Lava Jato foi não ter investigado a corrupção do Poder Judiciário. Há casos laterais. Cunha poderia ter oferecido peixes graúdos.

A série de reportagens com base no arquivo do “Intercept Brasil” deixa claro que o sistema de justiça foi corrompido. Não existia juiz. Existia procurador, promotor, delegado. Esse modus operandi é ilegal.

Diante de todo o material jornalístico divulgado, não dá pra sustentar que as conversas são falsas ou adulteradas. A Polícia Federal tem de ser uma polícia de Estado e não de governo.

Quais foram as medidas já adotadas até o momento na investigação do suposto hacker? O que foi feito para esclarecer a veracidade das mensagens? Onde estão os celulares funcionais de procuradores da República para serem periciados?

Pelo padrão da Lava Jato, a polícia ou o MP já teriam pedido ao Judiciário uma busca e apreensão. Provavelmente, se ainda fosse juiz, Moro a aprovaria.

Se funcionários púbicos apagaram mensagens e aplicativos, pode haver quem tenha feito isso num tempo em que ainda se seja possível a recuperação de dados na nuvem do Telegram. Não entregar celulares para perícia pode soar como obstrução de justiça.

A “Folha de S.Paulo” trouxe reportagem mostrando que figurões da Lava Jato discutiam como divulgar uma parte da delação da Odebrecht a fim de prejudicar o governo de Nicolás Maduro na Venezuela.

Ora, isso é pura interferência política. Na discussão, procuradores sabiam que estariam facilitando um vazamento. Isso é ação de partido político. No caso, é grave interferência geopolítica.

Se o Judiciário brasileiro admite fazer isso com um outro país em nome do que julga ser o bem, também admite que um outro país, como os EUA, possa fazer o mesmo em relação ao Brasil.

A imprensa não pode normalizar esse tipo de ação. Essas condutas são ilegais. Corrupção não deriva só de roubo de dinheiro, mas também ocorre por vaidade e posição de poder. O sistema Judiciário que emerge das revelações do “Intercept Brasil” só age assim em ditaduras ou autocracias.

O repórter Rubens Valente escreveu artigo recente na “Folha de S.Paulo” que mostra o presidente Jair Bolsonaro confirmando ter recebido de Moro informação sob segredo de Justiça. Isso é tratar a PF como polícia de governo e não como de Estado.

Culto à personalidade é típico de ditaduras. Bolsonaro e Moro são autocratas. Querem ditar o que a imprensa deve publicar e o que jornalistas devem escrever e falar. Nos depoimentos no Senado e na Câmara, o ministro da Justiça deu lições aos editores e repórteres de jornais, rádios e TVs. Ele tem baixa tolerância à crítica.

Adotada pelas estrelas da Lava Jato, a linha de defesa de lançar dúvida sobre a veracidade dos diálogos é frágil. Foi demolida pela própria Lava Jato em outros episódios.

Moro e Dallagnol não seguiram os limites éticos e legais que impuseram aos outros. Estão se comportando como se estivessem acima da lei, exatamente o que muitos integrantes da Lava Jato disseram a respeito de Lula, Temer, Marcelo Odebrecht, políticos e grandes empresários. Julgados pelos critérios que aplicaram na Lava Jato, Moro e Dallagnol seriam acusados de crimes e responderiam a processos.

O Judiciário e Ministério Público precisam dizer se o sistema legal que temos é esse aplicado por Moro e Dallagnol. Formalidades importam no direito, sobretudo no penal. Se o STF referendar esse tipo de comportamento de juízes e procuradores, a democracia do país se fragilizará. Se a lei não vale para todos, a democracia corre risco. O Brasil está numa encruzilhada.

Fonte:Blog Kenedy/Portal IG/DataFolha